Memória: Da FDSBC para o Ministério Público do Estado de São Paulo

Para o quadro Memória, compartilhamos histórias de pessoas que integram a trajetória da Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo. É um espaço para relembrar e celebrar os momentos vividos e dividir lembranças.

O bate-papo foi com o ex-aluno Bruno Servello Ribeiro, formado em 2006 e atualmente integra o GAECO – Núcleo ABC, Grupo Especial de Enfrentamento ao Crime Organizado da Região do Grande ABC,  onde atua hoje em dia.

Confira abaixo a conversa completa.

FDSBC: Quando você decidiu que iria cursar Direito?

Bruno Servello Ribeiro: Embora não tivesse nenhum familiar que atuasse no Direito, sempre gostei da Área de Humanas, certamente influenciado pela minha mãe, que era professora de História. Nunca me conformei com as injustiças sociais existentes no Brasil, de modo que foi no segundo ano do ensino médio que comecei a me interessar pelo Direito. Confesso que mesmo no terceiro ano do ensino médio cheguei a cogitar outras áreas, inclusive, relacionadas às Exatas, mas, após o êxito no vestibular e início das aulas, tive certeza da correta escolha realizada.

F: Por que escolheu a Direito São Bernardo?

B: A escolha pela Direito São Bernardo se deu pela qualidade do ensino. Trata-se de uma Faculdade tradicional e respeitada no âmbito jurídico que, certamente, forma grandes expoentes, sendo, sem dúvida alguma, a melhor da região e uma das melhores do Estado de São Paulo. Evidentemente atrelado a isso, estava a facilidade de localização, eis que eu morava em Santo André.

F: Como foi passar no vestibular da FDSBC?

B: O ensino médio foi pautado por muito estudo – não foi nada fácil, mas assim como tudo que não é fácil, quase sempre se mostra absolutamente recompensador ao final. Portanto, obter êxito no vestibular da Faculdade foi um misto de um sonho realizado e expectativas sobre a nova fase de minha vida.

F: Como foram os anos vividos aqui?

B: Foram anos de muito aprendizado, não somente em relação às lições na sala de aula, mas também quanto ao crescimento humano – as experiências de convivência no Centro Acadêmico, os embates jurídicos, além das reivindicações à própria Faculdade.

F: O que pode destacar desse período?

B: Certamente a Faculdade garante um ambiente de muita reflexão e formação intelectual – posso destacar a verdadeira revolução quanto à compreensão de temas sensíveis do dia a dia do país. Os noticiários acerca de temas jurídicos pareciam fazer mais sentido, ter uma lógica, uma racionalidade – as relações humanas e seus conflitos começaram a ser melhor entendidos em suas causas e efeitos, ao passo que, a cada dia de ensino descobrimos novas formas de dar soluções justas a tais conflitos.

F: Quais foram os professores que marcaram sua trajetória?

B: Muitos foram os professores que marcaram minha trajetória na Faculdade, dentre eles, o professor Toru Yamamoto, meu orientador de monografia, quem eu tive o grande prazer de ser assistente por algum tempo, sendo uma inspiração para seguir trilhando o caminho dos concursos públicos, exemplo de simplicidade e educação; Sidney Benetti, professor de Direito Processual Civil, um dos professores mais brilhantes que tive a oportunidade de assistir dando aulas, de conhecimento imenso na matéria; o saudoso professor Luciano de Camargo Penteado, professor de Direito Civil, também de um conhecimento incrível, de exposição apaixonada na matéria; o professor Vladimir Balico, professor de Direito Processual Penal que com seu carisma e simpatia deixava as aulas fáceis e muito prazerosas; a professora Elizabeth, de Processo Civil, de extrema didática e inteiramente preparada.

F: Do que sente mais falta da época dos estudos?

B: Ainda que árduos, os estudos na Faculdade são apaixonantes. Trata-se de um primeiro contato com o Direito, uma época de extrema reflexão, quando muitos paradigmas são quebrados, causando uma tempestade de pensamentos. O Direito é sem dúvida a Ciência das Relações Humanas, relações estas que ensejam conflitos, ao passo que o estudo das soluções por meio da interpretação das leis é absolutamente compensador e criativo.

F: E as amizades? Ainda tem contato?

B: Quanto às amizades, mantenho contato pelo Facebook, mas já há algum tempo não vejo alguns dos amigos que se formaram comigo pessoalmente, o que foi agravado pela pandemia. Ainda assim, certamente tive notícias de amigos da minha sala que galgaram brilhantes carreiras, sejam aqueles que optaram pela Advocacia, sejam aqueles que optaram pelo concurso público, tornando-se Delegados de Polícia e Juízes de Direito. No mais, a Faculdade ainda me deu meu maior presente: minha melhor amiga, noiva e futura esposa.

F: Como a Direito São Bernardo contribuiu para sua carreira?

B: A Direito São Bernardo certamente foi o primeiro e fundamental passo para a minha carreira, dando toda a base jurídica necessária, com solidez, auxiliando-me na continuidade dos estudos jurídicos, até que fosse possível o êxito no concurso público que pretendia.

F: O que a Direito São Bernardo significa para você?

B: A Direito São Bernardo significa para mim uma mudança fundamental de vida, a base para aquisição dos conhecimentos jurídicos que até hoje carrego comigo, lembrando-me de muitas lições que aprendi – foi o movimento fundamental para eu poder fazer o que amo e sou muito grato a isso. Ainda que tudo seja perdido na vida, o conhecimento adquirido nunca será! Certamente me sinto abençoado por ter a oportunidade de trabalhar com o que amo, o que torna tudo mais prazeroso – quem tem essa oportunidade consegue fazer o trabalho com muito mais leveza, ainda que as dificuldades surjam.

F: Conte um pouco da sua trajetória profissional. 

B: Após me formar na Faculdade, no final de 2006, obtive aprovação no Exame da Ordem dos Advogados do Brasil, momento de muita alegria. Passei pelo chamado “sexto ano” (2007), ocasião em que cheguei a advogar por um ano na região do ABC. Posteriormente, advoguei por um ano e meio em São Paulo, o que foi fundamental para ter uma base das dificuldades gerais da carreira, criando ainda mais empatia por todos os atores que trabalham na área do Direito.

Posteriormente, em meados do ano de 2009, passei a me dedicar inteiramente ao concurso público que pretendia, isso graças ao apoio financeiro de minha mãe e ao apoio emocional de minha noiva. Foram tempos difíceis por conta da imensa carga de estudos, em média oito horas de estudo por dia, isso por volta de cinco anos, até que obtivesse êxito em passar no 89º Concurso para Promotor de Justiça do Ministério Público do Estado de São Paulo, nomeado como Promotor de Justiça Substituto da Circunscrição de Itanhaém em Junho de 2013, todo o esforço foi absolutamente recompensador!

Continuei minha jornada como Promotor de Justiça Substituto ao me transferir, em Novembro de 2013, para as Circunscrições de São Bernardo do Campo, trabalhando nas mais diferentes áreas do Direito (Direito Criminal, Direito Civil, Infância e Juventude, Direitos Difusos e Coletivos); até que, em Janeiro de 2018, me tornasse Promotor de Justiça da Comarca de Campos do Jordão, continuando minha progressão na carreira, vindo a ser nomeado pela Procuradoria Geral de Justiça ao GAECO – Núcleo ABC, Grupo Especial de Enfrentamento ao Crime Organizado da Região do Grande ABC, onde atualmente exerço minhas funções.

F: Quais são os desafios de trabalhar no ramo jurídico?

B: Em especial, na área que atualmente atuo, entendo que o maior desafio é o de conseguir dar uma resposta efetiva ao que a sociedade almeja, punindo integrantes de organizações criminosas pelos atos por eles praticados. Como membro do Ministério Público atuo árdua e diariamente, investigando e processando criminosos, porém, a efetiva punição depende de outros atores processuais. Não raras às vezes, a lentidão de processos complexos, nos quais são processados integrantes destas organizações (com grande poder econômico, influência política e alta capacidade de intimidação de testemunhas), é um grande problema que enfrento diariamente; o que decerto demanda estratégia e estudos intensos e contínuos em embates jurídicos de alto nível.

Assim, a necessidade de resposta efetiva e em tempo razoável aos crimes cometidos por integrantes de organizações criminosas está intrinsecamente ligada ao eventual sentimento de impunidade e insatisfação justificável da sociedade – e este é o desafio primordial do meu atual trabalho.

F: Hoje, o que o Direito representa para sua vida?

B: A oportunidade concreta de melhoria social. Sob o ponto de vista da minha atuação no combate à criminalidade organizada, o Direito representa a ferramenta que tenho em mãos para defender a sociedade, buscando punir aqueles que infringem a lei. Assim sendo, enxergo refletido no Ministério Público a voz do povo que clama por Justiça e refletido no Direito o meio que torna isso possível.

 F: Deixe um recado aos alunos da Direito São Bernardo: 

B: Certa vez um dos professores da Faculdade disse que uma boa Faculdade de Direito se verifica também pelo pátio, ou seja, além da notável base jurídica em que a Direito São Bernardo de fato concederá aos alunos, decerto também fará parte da formação de cada um: a interação social, a capacidade de reivindicação e argumentação, a formação humanitária, a empatia com os demais. Tudo isso também terá seu valor na formação acadêmica, porque, primeiro, o profissional do Direito trabalha diretamente com pessoas. Sempre costumo dizer que se o profissional da Saúde é capaz de matar alguém com um erro médico, o profissional do Direito é capaz de fazer alguém se matar com um erro jurídico. Por isso, o recado que deixo aos alunos é de sempre ter a consciência que os processos judiciais não são simples números, mas debatem a vida de pessoas, sendo que a atuação do profissional do Direito sempre deve ser pautada pela Ética, Justiça e Responsabilidade.